

Descrever os caminhos que me
levaram a desenvolver a metodologia pedagógica da Casa de
Ensaio representa
um esforço de documentação de um processo que envolve o resgate não somente de
uma memória pessoal, mas também de uma memória coletiva, de um patrimônio de
iniciativas que visam à construção do tecido social através do artístico. Ao
mesmo tempo em que busco aqui refletir sobre a complexa articulação entre o
artístico, o social, o pedagógico, o antropológico, o político etc., esse
artigo deve ser visto como um processo de autoquestionamento, de autorreflexão,
e não como a descrição de um projeto acabado, idealizado.
A metodologia teatral desenvolvida na Casa com crianças e adolescentes moradores
de bairros populares passou, portanto, por um crivo crítico durante um processo
acadêmico de mestrado. Aqui, processos humanos são vistos como uma abertura
para o ‘não-saber’. Nesse sentido, a construção de formas espetaculares a
partir do exercício teatral com crianças e adolescentes é o resultado de um
processo que parte, a cada vez, do desconhecido e do experimental. De fato,
minhas práticas cênicas transformaram-se nesse processo que culminou em um
curso livre de cinco ou mais anos consecutivos de duração: Brincaturas
& Teatrices (nome
criado com palavras inventadas pelos alunos em 2009), reconhecido em 2010, pelo
MINC, como pontinho de cultura.
Ele nasceu dentro de um dos programas-âncora da Casa de
Ensaio – o Palco de
Experiências, onde as regras na arte de encenar foram tomando
seu rumo em função da construção em parceria com as crianças. Um processo de
ação cultural que vem sendo desenvolvido há quinze anos de trabalhos
consecutivos com crianças e adolescentes. Nessa ação cultural da Casa e com o
curso Brincaturas & Teatrices por exemplo, procurei antes organizar
e levantar quais seriam as questões necessárias ao processo de criação
denominado “arte-transformação” sabendo que ninguém transforma ninguém.
Busco uma ação transformadora na qual as crianças e os
adolescentes tenham condições de percorrer seus caminhos com mais consciência e
sensibilidade, para que possam ser um dia os sujeitos de suas ações. Busco
potencializar, em seu dia a dia, seus talentos. Foi este o percurso que escolhi
para formatar o cursoBrincaturas
& Teatrices: desenvolver uma metodologia do teatro com
crianças e adolescentes, através do fazer teatral brincante e da reflexão sobre
ele, buscando a construção da consciência individual e coletiva com magia,
alegria e brincadeiras.
Mas, a escolha não foi casual. Como sabemos, o fazer teatral é
um campo fértil e aglutinador de sonhos. Através de pesquisas e vivências
práticas percebi quanto o jogo cênico pode ajudar a promover a consciência do
eu e do coletivo. A metodologia do curso e de toda a Casa de
Ensaio vai desenvolvendo
seu repertório de ações e valores em torno dessas metas anuais. Como
proporcionar ao aluno/atuante uma transformação individual através da criação
teatral de uma forma estética coletiva? Essa é a pergunta em função de suas
implicações pedagógicas. Tratamos de potencializar ou despertar em cada
aluno/atuante o seu talento individual e seu sonho, muitas vezes adormecido.
Incentivamos o aluno a se expressar sem medo, sem preconceito, ampliando seu
horizonte de opções culturais com novas informações e conceitos, fazendo a
ligação com o mundo contemporâneo e desenvolvendo neles uma atitude mais
crítica e reflexiva com relação ao seu universo, que tornem possíveis as
descobertas artísticas de cada um.
Temos ainda como objetivos específicos promover na Casa de
Ensaio um espaço
democrático de trocas de informações e experiências entre alunos/atuantes e
profissionais de áreas afins sobre questões culturais, sociais, políticas e
ambientais de sua tribo, região e do mundo. Isso além de apresentar à comunidade
local, a cada ano, novos trabalhos artísticos experimentais em teatro, espaços
alternativos ou na sala de teatro daCasa de
Ensaio. Fomentar e desenvolver na diversidade cultural uma rede
de conhecimentos através de encontros com pesquisadores, artistas, brincantes
brasileiros e estrangeiros, que possam trocar pensamentos, experiências
individuais de arte-transformação, de questões culturais, sociais e ambientais,
tendo em mente um mundo melhor hoje, agora, já.
Nos primeiros anos dessa experiência teatral (1996/1999), os
passos eram lentos e o público-alvo da Casaconstituído apenas de crianças e
adolescentes com experiência nas ruas. Trabalhar, conhecer e conviver com esses
meninos através da arte era um caminho novo e instigante. A questão de como
fazer arte com quem não tem comida sempre me inquietou. Se esses meninos não
eram atendidos nem nas necessidades básicas, como eu poderia oferecer um
alimento como a arte (também básico e vital, mas para a alma) e mostrar que
esta não era supérflua? Como trabalhar a existência humana desses jovens, que
além de não serem atendidos nas suas necessidades primordiais estavam
vulneráveis às situações como a não-efetivação de seus direitos de cidadania?
Começo definindo as bases para a construção de um processo de criação dialético
através de uma prática pedagógica com objetivo mais específico: a organização
do coletivo.
De acordo com Makarenko (1989, 35): “(…)
a prática pedagógica é a organização do coletivo, para a educação da
personalidade no coletivo e somente através do coletivo”. Acreditando
nessa força para a educação da personalidade e tomando como base a ação
cultural,“(…) Estou convicto de que a
finalidade da nossa educação reside não somente em educar um homem de espírito
criador, um homem cidadão capacitado para participar com máxima eficiência na
edificação do Estado. Nós devemos educar, também, uma pessoa que seja
obrigatoriamente feliz” (Makarenko: 1989,49). Apesar de
Makarenko ter na sua época uma posição socialista dentro de um regime político
comunista, gostaria de ressaltar o mesmo princípio, qual seja, “educar
para que uma pessoa possa ser feliz”. Ao fazer uma comparação entre
os jovens atendidos por ele com os jovens que estavam sendo atendidos por mim,
muitos caminhos se abriram para essa minha busca.
Assim, iniciei o diálogo também com esse pedagogo, compreendendo
melhor um novo percurso pedagógico que seguia através de identificação com suas
ações e que culminaria nesse curso Brincaturas & Teatrices. Buscava com
essa experiência encontrar uma metodologia capaz de resgatar as histórias de
vida de cada aluno. Privilegio o teatro sem deixar de lado as outras
manifestações artísticas como a dança, a música, as artes visuais, a
literatura, o cinema e a multimídia que são oferecidas nas oficinas do curso. Até
hoje, mesmo conhecendo os sacrifícios que ainda vislumbro no dia-a-dia, em se
tratando de trabalhar com teatro para crianças, adolescentes e jovens, com
poucos recursos financeiros e muitos preconceitos, o processo de transformação
é individual e gradativo.
Sabendo que “ser feliz” é cada vez mais complexo e relativo.
Percebe-se que a apropriação da arte na Casaatua como um dos fortes meios de
integração do aluno enquanto um ser cidadão para que assim ele possa agir com
mais autonomia, alegria e mais dignidade em suas escolhas de vida, já que
nossos alunos não tiveram o privilegio de um convívio mais pleno com ela. E a
grande via pela qual esta apropriação da arte nos possibilitada não é outra
senão a via da educação, tomada aqui em sentido especifico, por meio de uma
metodologia teatral experimental voltada a cultura da infância e da
adolescência em busca de uma pedagogia da alegria, em seu sentido mais
amplo da palavra. Ela é dividida em dois semestres.
No
primeiro as oficinas de artes transcorrem de acordo com os atos e
as idades dos alunos nos seu diversos segmentos, sempre tomando como
base: as brincadeiras através dos jogos tradicionais(resgate da cultura
da infância),jogos teatrais, do corpo, da voz ;sempre com estética,
alegria e amor, desde o primeiro ate o ultimo ano.
No final de cada semestre apresentamos a comunidade um Brincato (nome inventado pelos alunos, que
significa brincar de teatro). O Brincato I é um “trailler”, apenas uma aula
aberta sem pretensão de se montar uma peça, e e´ apresentado aos pais e à
comunidade, um pouco do que aprendemos no primeiro semestre. As diversas
unidades de estudos que são oferecidas durante o curso de Brincaturas
& Teatrices, a cada ano, vão se modificando de acordo com
as necessidades e desejos dos alunos nesse percurso que eles passam
na Casa, baseados nas
experiências anteriores. Esse planejamento como o nome diz é um plano
que sempre se atualiza e se constrói a cada novo ano. As turmas são
criadas com nomes e não por ano, para que o aluno possa ficar o tempo que for
necessário e de acordo com suas possibilidades. Aprendemos fazendo,
experimentando, uma construção diária e orgânica.
No entanto, no segundo semestre o que fundamenta
teoricamente a nossa metodologia é mais uma vez a historia do
teatro, por meio de mestres como Dario Fo, quando vai estudar a comedia de l´arte. Assim dividimos todos os alunos
em grupos como por exemplo: os cantantes, os dançantes, os brincantes, os
tocantes. Tomando como base a comedia
de l`arte como os:
cantares, balares e sonares. As idades se misturam e eles se agrupam
de acordo com seus desejos, escolhas pessoais, afinidades e dons artísticos.
Vigotsky parte do principio de que misturar as idades faz com que o
maior aprenda com o menor e vice-e-versa. E como fazer teatro é também a arte
do coletivo, juntos todos crescem e o exercício do coletivo, do coro e da
generosidade passa a ser o nosso norte de trabalho. O foco é único,
montar um Brincato II, umcarpet
show de até trinta
minutos, com sabor de espetáculo teatral mas sem preocupação de grandes
cenários, luz, figurinos etc. Fazemos com o que temos e podemos, tomando sempre
o cuidado também com a estética teatral pois eles a aprendem melhor durante o
Programa Palco de Experiências.
Cabe aqui uma explicação desse programa Palco de
Experiências, que é um Ponto de Cultura. Ele existe desde 1996
mas atualmente só acontece quando consegue-se patrocínios financeiros e
econômicos mínimos para um bom andamento do espetáculo. Monta-se uma grande
produção com profissionais de renome na ficha técnica, escolhe-se um grande
teatro na cidade e todos os alunos entram em cena durante uma semana
consecutiva. As portas são abertas para toda comunidade e
geralmente apresentam-se de oito a dez sessões consecutivas, com um
público de mais de cinco mil pessoas na cidade de Campo Grande, MS, Brasil.
No Brincato II também como em nossos grandes
espetáculos não incentivamos um único protagonista, todos
protagonizam e recebem seus personagens de acordo com suas
disponibilidades pessoais e potencial artístico. O texto, criado pelos
brincantes, já é escrito também para muitos personagens com diálogos
curtos, sabemos que estamos trabalhando com crianças
e adolescentes. Os personagens são criados alguns com mais falas e outros
com menos ou até nenhuma, mas todos são importantes para o bom desenvolvimento
do “espetáculo” e do ato (“carpet show”), que chamamos de Brincato II.
Como o
processo é brincante e orgânico muitas cenas acontecem e nascem durante os
ensaios. Por isso mesmo novas regras passam a existir e se tornam bem
rígidas, como a questão do comprometimento com o outro de não faltar aos
ensaios. Assim, a presença é fundamental. Os alunos atuantes recebem seus
personagens e se por acaso começam a faltar e não justificam,
dependendo da importância dos ensaios e da proximidade da estreia,
vão sendo substituídos.
Dentro dessa metodologia todas as unidades de estudos ficam
voltadas à dramaturgia da peça. Iniciam juntos, alunos e brincantes o processo
de montagem da peça que possuem o mesmo formato do Palco de
Experiências: desde as pesquisas sobre o tema escolhido, as
primeiras leituras, a criação do figurino com as customização das peças, a
programação visual, os adereços, a trilha, o texto, as coreografias. Aos poucos
vai se percebendo qual é o tom desse ato artístico e que chamamos de Brincato II.
O tom nasce durante os ensaios e nas conversas de
roda. Como esse trabalho não vai para um grande teatro, sendo desenvolvido em
nosso espaço da Casa, a projeção de voz é menor,
oportunizando mais alunos a quebrar uma de suas grande barreiras, falar em
público. Cabe nesse contexto falar um pouquinho sobre nossa realidade e
identidade cultural para que possam entender o perfil desse alunos. A Casa de Ensaio está situada em um estado novo,
fronteira com Paraguai e Bolívia. É nessa procura das “inutilidades da arte”
como diz o nosso poeta da terra, Manoel de Barros, que a diversidade cultural
desse novo Estado (Mato Grosso do Sul) flutua na modernidade com o hibridismo
que vai da música à dança, passando pela arte culinária, poesia e costumes em
geral. Dentro desse processo de ganhos ou perdas, de apropriações de
identidades, é que essas experiências servem também para entender melhor quem
são os alunos/atuantes da Casa de Ensaio,foco de nossos
estudos e trabalho continuo. Portanto, procurei manter um experimento que me
levasse a um caminho ativo que reivindicasse a dura realidade cultural desse
Estado, no plano político, no contexto social do século XXI.
Pesquisar
e interferir na organização social desse trabalho, tendo como foco uma ação
coletiva. Estimular e gerar ações que transformem e possam discutir essa
realidade. Provocar, indignar, apontar e agir contra algumas ações devastadoras
do homem. Desenvolver uma experiência que possibilite a arte-transformação e a
diversidade cultural, através do teatro e das outras artes, para um
desenvolvimento humano com crianças e adolescentes mais equânime. Nosso
objetivo ao finalizar o curso é fazer com que cada aluno se torne um
cidadão mais reflexivo, mais criativo, mais crítico, mais sensível e
também um companheiro de destino de seus pares humanos. Para assim poder
ir em busca dos seus sonhos.
Com esse curso assumimos um caráter mais poético sem,
entretanto, deixarmos de lado a sensibilidade às questões sociais. O aluno para
entrar na Casa de Ensaio passa por um processo de entrevista em
função do número limitado de vagas. Pretende-se que fique no curso e na Casa o maior tempo possível para que o
processo de transformação social e cultural através da arte aconteça
com mais força. Cerca de mais de mil e quinhentos adolescentes já foram
atendidos pela Casa de Ensaio. Atualmente, cento vinte
alunos participam desse curso. Estimulá-los à reflexão com prazer,
para levar magia e alegria àqueles que tem sede e fome de cultura, arte e novos
conhecimentos, é nosso oficio.
*
Laís
Dória, graduada em Pedagogia (FEJAC-RJ), especializada em Educação pela
Universidade do Rio de Janeiro e em Artes e suas Novas Tecnologias pela Universidade
Federal do Mato Grosso do Sul. Cursou o mestrado em Artes Cênicas pela
Universidade de São Paulo em 2008. Fundadora e supervisora artística pedagógica
da Casa de Ensaio, criou o curso Brincaturas & Teatrices, metodologia
voltada para crianças e adolescentes com foco no teatro. Atua na área de artes,
com ênfase em encenação, direção teatral e jogos teatrais. Foi presidente do
CMDCA de Campo Grande, em 2007. Membro da Rede Latino-Americana de Arte para a
Transformação Social e do Secretariado do Grupo Brasil desde 2000. Membro do
Núcleo de Cultura e Arte do IC&A desde 2009. Líder AVINA desde 2004.
Referências Bibliográficas
DÓRIA, Laís: Casa
de Ensaio, artes e desartes com o teatro. Dissertação de Mestrado, Programa de
Pós-graduação em Artes, Escola de Comunicação e Arte, Universidade de São
Paulo, 2008.
MAKARENKO,
A.S. Poemas Pedagógicos, São Paulo: Brasiliense, 1989.
