14/09/2011 - 11:33
Confira o artigo sobre o curso Brincaturas e Teatrices, por Laís Dória

Descrever os caminhos que me levaram a desenvolver a metodologia pedagógica da Casa de Ensaio representa um esforço de documentação de um processo que envolve o resgate não somente de uma memória pessoal, mas também de uma memória coletiva, de um patrimônio de iniciativas que visam à construção do tecido social através do artístico. Ao mesmo tempo em que busco aqui refletir sobre a complexa articulação entre o artístico, o social, o pedagógico, o antropológico, o político etc., esse artigo deve ser visto como um processo de autoquestionamento, de autorreflexão, e não como a descrição de um projeto acabado, idealizado.

A metodologia teatral desenvolvida na Casa com crianças e adolescentes moradores de bairros populares passou, portanto, por um crivo crítico durante um processo acadêmico de mestrado. Aqui, processos humanos são vistos como uma abertura para o ‘não-saber’. Nesse sentido, a construção de formas espetaculares a partir do exercício teatral com crianças e adolescentes é o resultado de um processo que parte, a cada vez, do desconhecido e do experimental. De fato, minhas práticas cênicas transformaram-se nesse processo que culminou em um curso livre de cinco ou mais anos consecutivos de duração: Brincaturas & Teatrices (nome criado com palavras inventadas pelos alunos em 2009), reconhecido em 2010, pelo MINC, como pontinho de cultura.

Ele nasceu dentro de um dos programas-âncora da Casa de Ensaio – o Palco de Experiências, onde as regras na arte de encenar foram tomando seu rumo em função da construção em parceria com as crianças. Um processo de ação cultural que vem sendo desenvolvido há quinze anos de trabalhos consecutivos com crianças e adolescentes. Nessa ação cultural da Casa e com o curso Brincaturas & Teatrices por exemplo, procurei antes organizar e levantar quais seriam as questões necessárias ao processo de criação denominado “arte-transformação” sabendo que ninguém transforma ninguém.

Busco uma ação transformadora na qual as crianças e os adolescentes tenham condições de percorrer seus caminhos com mais consciência e sensibilidade, para que possam ser um dia os sujeitos de suas ações. Busco potencializar, em seu dia a dia, seus talentos. Foi este o percurso que escolhi para formatar o cursoBrincaturas & Teatrices: desenvolver uma metodologia do teatro com crianças e adolescentes, através do fazer teatral brincante e da reflexão sobre ele, buscando a construção da consciência individual e coletiva com magia, alegria e brincadeiras.

Mas, a escolha não foi casual. Como sabemos, o fazer teatral é um campo fértil e aglutinador de sonhos. Através de pesquisas e vivências práticas percebi quanto o jogo cênico pode ajudar a promover a consciência do eu e do coletivo. A metodologia do curso e de toda a Casa de Ensaio vai desenvolvendo seu repertório de ações e valores em torno dessas metas anuais. Como proporcionar ao aluno/atuante uma transformação individual através da criação teatral de uma forma estética coletiva? Essa é a pergunta em função de suas implicações pedagógicas. Tratamos de potencializar ou despertar em cada aluno/atuante o seu talento individual e seu sonho, muitas vezes adormecido. Incentivamos o aluno a se expressar sem medo, sem preconceito, ampliando seu horizonte de opções culturais com novas informações e conceitos, fazendo a ligação com o mundo contemporâneo e desenvolvendo neles uma atitude mais crítica e reflexiva com relação ao seu universo, que tornem possíveis as descobertas artísticas de cada um.

Temos ainda como objetivos específicos promover na Casa de Ensaio um espaço democrático de trocas de informações e experiências entre alunos/atuantes e profissionais de áreas afins sobre questões culturais, sociais, políticas e ambientais de sua tribo, região e do mundo. Isso além de apresentar à comunidade local, a cada ano, novos trabalhos artísticos experimentais em teatro, espaços alternativos ou na sala de teatro daCasa de Ensaio. Fomentar e desenvolver na diversidade cultural uma rede de conhecimentos através de encontros com pesquisadores, artistas, brincantes brasileiros e estrangeiros, que possam trocar pensamentos, experiências individuais de arte-transformação, de questões culturais, sociais e ambientais, tendo em mente um mundo melhor hoje, agora, já.

Nos primeiros anos dessa experiência teatral (1996/1999), os passos eram lentos e o público-alvo da Casaconstituído apenas de crianças e adolescentes com experiência nas ruas. Trabalhar, conhecer e conviver com esses meninos através da arte era um caminho novo e instigante. A questão de como fazer arte com quem não tem comida sempre me inquietou. Se esses meninos não eram atendidos nem nas necessidades básicas, como eu poderia oferecer um alimento como a arte (também básico e vital, mas para a alma) e mostrar que esta não era supérflua? Como trabalhar a existência humana desses jovens, que além de não serem atendidos nas suas necessidades primordiais estavam vulneráveis às situações como a não-efetivação de seus direitos de cidadania? Começo definindo as bases para a construção de um processo de criação dialético através de uma prática pedagógica com objetivo mais específico: a organização do coletivo.

De acordo com Makarenko (1989, 35): “(…) a prática pedagógica é a organização do coletivo, para a educação da personalidade no coletivo e somente através do coletivo”. Acreditando nessa força para a educação da personalidade e tomando como base a ação cultural,“(…) Estou convicto de que a finalidade da nossa educação reside não somente em educar um homem de espírito criador, um homem cidadão capacitado para participar com máxima eficiência na edificação do Estado. Nós devemos educar, também, uma pessoa que seja obrigatoriamente feliz” (Makarenko: 1989,49). Apesar de Makarenko ter na sua época uma posição socialista dentro de um regime político comunista, gostaria de ressaltar o mesmo princípio, qual seja, “educar para que uma pessoa possa ser feliz”. Ao fazer uma comparação entre os jovens atendidos por ele com os jovens que estavam sendo atendidos por mim, muitos caminhos se abriram para essa minha busca.

Assim, iniciei o diálogo também com esse pedagogo, compreendendo melhor um novo percurso pedagógico que seguia através de identificação com suas ações e que culminaria nesse curso Brincaturas & Teatrices. Buscava com essa experiência encontrar uma metodologia capaz de resgatar as histórias de vida de cada aluno. Privilegio o teatro sem deixar de lado as outras manifestações artísticas como a dança, a música, as artes visuais, a literatura, o cinema e a multimídia que são oferecidas nas oficinas do curso. Até hoje, mesmo conhecendo os sacrifícios que ainda vislumbro no dia-a-dia, em se tratando de trabalhar com teatro para crianças, adolescentes e jovens, com poucos recursos financeiros e muitos preconceitos, o processo de transformação é individual e gradativo.

Sabendo que “ser feliz” é cada vez mais complexo e relativo. Percebe-se que a apropriação da arte na Casaatua como um dos fortes meios de integração do aluno enquanto um ser cidadão para que assim ele possa agir com mais autonomia, alegria e mais dignidade  em suas escolhas de vida, já que nossos alunos não tiveram o privilegio de um convívio mais pleno com ela. E a grande via pela qual esta apropriação da arte nos possibilitada não é outra senão a via da educação, tomada aqui em sentido especifico, por meio de uma metodologia teatral experimental voltada a cultura da infância e da adolescência em busca de uma pedagogia da alegria, em  seu sentido mais amplo da palavra. Ela é dividida em dois semestres.

No primeiro  as oficinas de artes  transcorrem de acordo com os atos e as idades dos alunos nos seu diversos segmentos, sempre  tomando como base:  as brincadeiras através dos jogos tradicionais(resgate da cultura da infância),jogos  teatrais, do corpo, da voz ;sempre com estética, alegria e amor, desde o primeiro  ate o  ultimo  ano.

No final  de cada semestre apresentamos a comunidade um Brincato (nome inventado pelos alunos, que significa brincar de teatro). O Brincato I é um “trailler”, apenas uma aula aberta sem pretensão de se montar uma peça, e e´ apresentado aos pais e à comunidade, um pouco do que aprendemos no primeiro semestre. As diversas unidades de estudos que são oferecidas durante o curso de Brincaturas & Teatrices, a cada ano, vão se modificando de acordo com as necessidades e desejos dos alunos nesse percurso que eles passam na Casa, baseados nas experiências anteriores. Esse planejamento como o nome diz é um plano que sempre se atualiza e se constrói a cada novo ano. As turmas são criadas com nomes e não por ano, para que o aluno possa ficar o tempo que for necessário e de acordo com suas possibilidades. Aprendemos fazendo, experimentando, uma construção diária e orgânica.

No entanto, no segundo semestre o que fundamenta teoricamente a nossa metodologia é mais uma vez a historia do teatro, por meio de mestres como Dario Fo, quando vai estudar a comedia de l´arte. Assim dividimos todos os alunos em grupos como por exemplo: os cantantes, os dançantes, os brincantes, os tocantes. Tomando como base a comedia de l`arte como os: cantares, balares e sonares. As idades se misturam e eles se agrupam de acordo com seus desejos, escolhas pessoais, afinidades e dons artísticos. Vigotsky parte do principio de que misturar as idades faz com que o maior aprenda com o menor e vice-e-versa. E como fazer teatro é também a arte do coletivo, juntos todos crescem e o exercício do coletivo, do coro e da generosidade passa a ser o nosso norte de trabalho. O foco é único, montar um Brincato II, umcarpet show de até trinta minutos, com sabor de espetáculo teatral mas sem preocupação de grandes cenários, luz, figurinos etc. Fazemos com o que temos e podemos, tomando sempre o cuidado também com a estética teatral pois eles a aprendem melhor durante o Programa Palco de Experiências.

Cabe aqui uma explicação desse programa Palco de Experiências, que é um Ponto de Cultura. Ele existe desde 1996 mas atualmente só acontece quando consegue-se patrocínios financeiros e econômicos mínimos para um bom andamento do espetáculo. Monta-se uma grande produção com profissionais de renome na ficha técnica, escolhe-se um grande teatro na cidade e todos os alunos entram em cena durante uma semana consecutiva. As portas são abertas para toda comunidade e geralmente apresentam-se de oito a dez sessões consecutivas, com um público de mais de cinco mil pessoas na cidade de Campo Grande, MS, Brasil.

No Brincato II também como em nossos grandes espetáculos não incentivamos um único protagonista, todos protagonizam e recebem seus personagens de acordo com suas disponibilidades pessoais e potencial artístico. O texto, criado pelos brincantes, já é escrito também para muitos personagens com diálogos curtos, sabemos que estamos trabalhando com crianças e adolescentes. Os personagens são criados alguns com mais falas e outros com menos ou até nenhuma, mas todos são importantes para o bom desenvolvimento do “espetáculo” e do ato (“carpet show”), que chamamos de Brincato II.

Como o processo é brincante e orgânico muitas cenas acontecem e nascem durante os ensaios. Por isso mesmo novas regras passam a existir e se tornam bem rígidas, como a questão do comprometimento com o outro de não faltar aos ensaios. Assim, a presença é fundamental. Os alunos atuantes recebem seus personagens e se por acaso começam a faltar e não justificam, dependendo da importância dos ensaios e da proximidade da estreia, vão sendo substituídos.

Dentro dessa metodologia todas as unidades de estudos ficam voltadas à dramaturgia da peça. Iniciam juntos, alunos e brincantes o processo de montagem da peça que possuem o mesmo formato do Palco de Experiências: desde as pesquisas sobre o tema escolhido, as primeiras leituras, a criação do figurino com as customização das peças, a programação visual, os adereços, a trilha, o texto, as coreografias. Aos poucos vai se percebendo qual é o tom desse ato artístico e que chamamos de Brincato II.

O tom nasce durante os ensaios e nas conversas de roda. Como esse trabalho não vai para um grande teatro, sendo desenvolvido em nosso espaço da Casa, a projeção de voz é menor, oportunizando mais alunos a quebrar uma de suas grande barreiras, falar em público. Cabe nesse contexto falar um pouquinho sobre nossa realidade e identidade cultural para que possam entender o perfil desse alunos. A Casa de Ensaio está situada em um estado novo, fronteira com Paraguai e Bolívia. É nessa procura das “inutilidades da arte” como diz o nosso poeta da terra, Manoel de Barros, que a diversidade cultural desse novo Estado (Mato Grosso do Sul) flutua na modernidade com o hibridismo que vai da música à dança, passando pela arte culinária, poesia e costumes em geral. Dentro desse processo de ganhos ou perdas, de apropriações de identidades, é que essas experiências servem também para entender melhor quem são os alunos/atuantes da Casa de Ensaio,foco de nossos estudos e trabalho continuo. Portanto, procurei manter um experimento que me levasse a um caminho ativo que reivindicasse a dura realidade cultural desse Estado, no plano político, no contexto social do século XXI.

Pesquisar e interferir na organização social desse trabalho, tendo como foco uma ação coletiva. Estimular e gerar ações que transformem e possam discutir essa realidade. Provocar, indignar, apontar e agir contra algumas ações devastadoras do homem. Desenvolver uma experiência que possibilite a arte-transformação e a diversidade cultural, através do teatro e das outras artes, para um desenvolvimento humano com crianças e adolescentes mais equânime. Nosso objetivo ao finalizar o curso é fazer com que cada aluno se torne um cidadão mais reflexivo, mais criativo, mais crítico, mais sensível e também um companheiro de destino de seus pares humanos. Para assim poder ir em busca dos seus sonhos.

Com esse curso assumimos um caráter mais poético sem, entretanto, deixarmos de lado a sensibilidade às questões sociais. O aluno para entrar na Casa de Ensaio passa por um processo de entrevista em função do número limitado de vagas. Pretende-se que fique no curso e na Casa o maior tempo possível para que o processo de  transformação social e cultural através da arte aconteça com mais força. Cerca de mais de mil e quinhentos adolescentes já foram atendidos pela Casa de Ensaio. Atualmente, cento vinte  alunos participam desse curso. Estimulá-los à reflexão com prazer, para levar magia e alegria àqueles que tem sede e fome de cultura, arte e novos conhecimentos, é nosso oficio.

*Laís Dória, graduada em Pedagogia (FEJAC-RJ), especializada em Educação pela Universidade do Rio de Janeiro e em Artes e suas Novas Tecnologias pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Cursou o mestrado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo em 2008. Fundadora e supervisora artística pedagógica da Casa de Ensaio, criou o curso Brincaturas & Teatrices, metodologia voltada para crianças e adolescentes com foco no teatro. Atua na área de artes, com ênfase em encenação, direção teatral e jogos teatrais. Foi presidente do CMDCA de Campo Grande, em 2007. Membro da Rede Latino-Americana de Arte para a Transformação Social e do Secretariado do Grupo Brasil desde 2000. Membro do Núcleo de Cultura e Arte do IC&A desde 2009. Líder AVINA desde 2004.

Referências Bibliográficas

DÓRIA, Laís: Casa de Ensaio, artes e desartes com o teatro. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-graduação em Artes, Escola  de Comunicação e Arte, Universidade de São Paulo, 2008.

MAKARENKO, A.S. Poemas Pedagógicos, São Paulo: Brasiliense, 1989.

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